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Professor, Advogado, Especialista em Direito Constitucional pela Escola Paulista de Direito, Pós Graduado em Direito Constitucional e Administrativo, sócio fundador da Peres e Almeida Advogados Associados, sócio fundador da Bait Iehuda Condomínios, Membro do GEA - Grupo de Estudos Avançados do Complexo Jurídico Damásio de Jesus, fundador e Conselheiro Vitalício do IPAM - Instituto Paulista dos Advogados Maçons

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Metsorá

Judaísmo e Conhecimento

Nesta semana, a leitura da Torá descreve leis relativas à tzaraat, erupção na pele. Conforme essas leis, o Cohen (sacerdote) tem o poder de examinar, diagnosticar e tratar erupções que venham a surgir no corpo de algum israelita. A doença é considerada pela Torá curável e coloca o doente em estado de impureza temporária. Por isto, os sacerdotes, que são responsáveis por distinguir entre pureza e impureza e tratar as impurezas, são responsáveis por essas erupções.

O Midrásh interpreta a repetição das palavras “este é o ritual” no contexto de purificação de pessoas afetadas pelas erupções. Segundo a interpretação, essa repetição vem nos ensinar que o sacerdote precisa conhecer todos os tipos de erupção para que possa tratar de algum deles. Apenas o sacerdote que fosse especializado em tzaraat poderia cuidar da doença.

Segundo meu professor, o rabino Michael Graetz, existe uma semelhança fascinante entre as leis de purificação sacerdotais e a medicina moderna. Apenas poderá especializar-se aquele Cohen ou aquele médico que conhece o assunto de maneira geral. O sacerdote precisa estar familiarizado com todos os tipos de erupção ou, no caso dos nossos médicos, precisam conhecer todas as espécies de doenças antes de começar a examinar um paciente sobre um caso específico. A regra geral parece ser a seguinte: só aquele que tem conhecimento geral em determinada área adquire clareza e sabedoria suficientes para identificar e tratar casos específicos.

Esta mesma regra foi adotada para todas as áreas do saber. Aquele que pretende conhecer uma área específica do Direito, por exemplo, como o Direito do Consumidor, aprende primeiro Direito Romano (no qual se baseia o Direito Brasileiro), aprende Penal e Civil, várias matérias introdutórias como Sociologia e Psicologia, para só então estudar uma área mais específica.

No Judaísmo não é diferente. Só aquele que conhece todas as áreas do conhecimento judaico pode especializar-se em alguma delas. Um boa noção de Torá, Midrásh, Talmud e Halachá é essencial para entender qualquer assunto judaico. Além disto, para compreender o Judaísmo, é importante estudar o mundo pagão do qual a nossa religião surgiu e ainda verificar as religiões que se desenvolveram com base na religião judaica - o Cristianismo e o Islamismo. Filosofias orientais como o Budismo e o Hinduísmo também influenciaram e foram influenciadas pela religião judaica em áreas como a Cabalá.

Embora vivamos hoje num mundo em que o acesso ao conhecimento superficial tornou-se fácil, as diretrizes do saber precisam permanecer aquelas já previstas na Torá. Todo aquele que pretende tratar com propriedade sobre um assunto específico, precisa estudar os demais assuntos dentro da mesma área do conhecimento. Tornou-se difícil identificar um livro, um site da Internet ou um artigo confiáveis. A pergunta que precisamos nos fazer é se a pessoa responsável pela publicação daquele material tem apenas um limitado conhecimento específico ou é também um bom “clínico geral”.

Shabat Shalom!
Michel Schlesinger

sexta-feira, 25 de março de 2011

Parashá de Shemini - Nem tão longe, nem tão perto

É natural querermos estar próximos de quem amamos. Porém a sensação agradável de ter quem gostamos por perto pode, num piscar de olhos, transformar-se em desconforto e constrangimento. A diferença entre o que aquece o coração e o que queima o fígado é mínima.
É natural querermos abrir espaço para quem amamos. Mas dar espaço demais pode, num piscar de olhos, gerar indiferença e apatia.
Era o oitavo dia.
Um dia que de tão emocionante é como se não coubesse nos sete dias da Criação: a inauguração do Santuário. Dia de festa para toda Israel, em especial para a família sacerdotal, Aarão e seus filhos. Todos se aproximam e oferecem sacrifícios de acordo com o ordenado por Deus. Bodes, carneiros e bois são degolados, sangue é aspergido, órgãos internos, gorduras e couros são queimados no altar. Um espetáculo de calores, aromas e sensações que hoje em dia talvez provoquem apetite em alguns e enjoo em outros. De repente, os sacerdotes Nadav e Avihu, filhos mais velhos de Aarão, aproximam-se mais do que os demais, oferecem incenso vegetal - e morrem queimados na mesma hora. A alegria e a comemoração acabara de se transformar em tragédia.
Moisés parece não saber o que dizer ao irmão.
Em momentos de luto, principalmente os inesperados e trágicos, muitos de nós temos dificuldades em transmitir com nossas próprias palavras o consolo ao enlutado. Uma tentativa é dizer algo pronto, como que vindo de Deus. Imaginem a cena: Moisés se aproxima de Aarão, olha nos seus olhos e murmura: “Meu irmão, Deus disse que será santificado por seus próximos”. Aarão permanece mudo. Quem eram os próximos de Deus: os que se aproximaram demais ou os que se aproximaram conforme o ordenado?
Podemos especular que Moisés não se solidariza com a dor do irmão - ou se solidariza, mas não encontra as palavras certas. Diz algo, algo que D eus deve ter dito - e livra-se do peso das condolências. Aarão, mudo, parece não escutar ou não acreditar no que escuta. Ou fica mudo por sentir que o que Moisés disse não lhe diz nada. O fato é que ele está pasmo diante da morte dos filhos. Não há o que dizer, não há o que responder diante desta tragédia. Mas bastava Moisés se aproximar e ficar ao lado? Seriam estas a distância e a atitude corretas? A diferença entre o próximo bom e o próximo invasivo pode ser mínima e varia de caso para caso.
A Torá dos Animais
Nesta mesma parashá lemos sobre quais animais podemos consumir e quais não. Entre os proibidos estão o camelo, a lebre, o coelho e o porco.
O Midrash Vaicrá Rabá compara estes animais proibidos a quatro impérios: o camelo ao Império Babilônico; a lebre ao Império Pers a; o coelho ao Império Grego; e o porco ao Império de Edom, numa referência velada à cultura dominante nos tempos dos sábios do Midrash. Consumir estes animais significa neste contexto, assimilar a cultura dominante da época. Ainda hoje o porco é um dos animais mais consumidos pela cultura que nos cerca. Consumi-lo pode até não fazer mal à saúde física, mas distancia a alma dos valores judaicos.
Aproximar-se demais de Deus pode levar ao fanatismo. Distanciar-se demais pode levar à indiferença. Entre uma margem e outra, há muito espaço para uma vida judaica ao mesmo tempo conectada à nossa história e antenada com o nosso tempo. 

Congregação Israelita Paulista

Shabat shalom, de Jerusalém
Uri Lam